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Poucas pessoas o conheciam pelo seu nome, Waldemar José Pereira. Mas como “Lôro da Farmácia”, seu apelido, foi um dos mais conhecidos, respeitados e requisitados moradores de Malacacheta.

Tudo começou, na farmácia do seu Jovino, onde aprendeu o oficio de farmacêutico prático. Depois Lôro trabalhou durante anos na Farmácia “Galeno” de Inácio Abrantes (seu cunhado), situada na Rua Tristão Couy. Mas sem querer menosprezar o proprietário, outro ilustre cidadão, era por Lôro, que as pessoas iam à farmácia procurar.

Em 1976, foi candidato a vice-prefeito em uma chapa com Odilon Pampa. Muitas pessoas diziam à época que, se fosse Lôro o candidato a prefeito teria vencido as eleições, visto que sua chapa ficou em segundo lugar, entre as três que disputaram.
Lôro era um típico farmacêutico prático, muito prestativo e atencioso. Embora sem diploma formal, concluiu apenas a 5ª série na E. E. Frei Francisco, foi um autodidata estudioso.

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Assim era Lôro, um farmacêutico de verdade, pois a sua experiência nos trazia a cura dos males quando lá acorríamos. Lôro veio de um tempo que dadas às dificuldades de todos, ainda era permitido se tratar apenas com o talento pessoal.

Algumas pessoas se perguntam se esse atendimento não referendado por um diploma de medicina ou mesmo de farmácia não poderia causar algum dano a um paciente mal diagnosticado.
Sim, poderia, mas em uma época que o acesso aos médicos era caro e não fazia parte da cultura de nosso povo, esse atendimento poderia significar a diferença. Até porque funcionava como uma espécie de triagem, convencendo as pessoas da necessidade de procura de atendimento médico, nos casos mais graves.
Um amigo, que prefiro omitir o nome, me relatou que uma vez procurou Lôro, sentindo uma dormência nas pernas. Lôro receitou um remédio que o fez melhorar, mas passando algum tempo a dormência voltou. Ele procurou então um médico da cidade, que lhe receitou outro remédio, mas, que não trouxe alívio.
O mesmo foi então, procurar tratamento em Belo Horizonte. Para sua surpresa, o médico de BH disse uma frase que ilustra bem a importância do que Lôro fazia.
- De farmacêutico vocês estão bem servidos, agora de médico...
Ou seja, o remédio receitado por Lôro estava correto, apenas a dosagem não fora suficiente.

Em 1979, Lôro montou sua própria farmácia . A Farmácia Atalaia foi um sucesso imediato. Situava-se na Avenida Pedro Abrantes, na frente da casa da família de D. Conceição Torres, que, aliás, tinha um membro da família em seu quadro de funcionários, o braço direito de Lôro, Eliézio.

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As pessoas diziam que Lôro logo seria um dos homens mais ricos de Malacacheta, por ser conhecido de todos e por falta de uma concorrência efetiva.

E realmente a farmácia prosperou muito nos primeiros anos. Ma Lôro era daquele tipo de pessoa que não negava fiado a um freguês que precisava de remédio, estando a pessoa com as contas em dia ou não, tendo a pessoa fama de má pagadora ou não.

Lôro, que era casado com “Dona Antoninha Abrantes”, teve com ela três filhos, Janine, Lea e Alexandre

Em 1982, aconteceu uma tragédia que impactou muito sua vida dali em diante. Alexandre, seu filho mais velho, ao mergulhar na lagoa do SOLCLUBE, acabou se acidentando e ficando tetraplégico para sempre.
Talvez por isso, Lôro tenha experimentado um período de estagnação em sua farmácia, enquanto a concorrência evoluía.
Houve um tempo em que ele buscava refúgio no álcool, hábito que conseguiu superar, muito pelo apoio do AA (Alcólicos Anônimos), que ele foi um dos fundadores, ajudando assim, a si mesmo e a outros e em uma fazenda de café, na qual gostava de se isolar por dias.
Em 1986, quando montei a Roupa Nova, era seu vizinho de frente. Pude acompanhar de perto parte de sua trajetória.
Vi a saída de seus funcionários mais antigos. Vi a entrada de novos funcoinários. Vi a Farmácia Atalaia, por outro período, voltar a ser a número um da cidade.
Lôro era uma pessoa carismática e interessante. Embora às vezes se mostrasse de semblante fechado, na maioria do tempo, era brincalhão e comunicativo com pessoas de todas as idades.
Hoje, acho graça, por exemplo, quando aos 12 anos de idade fui ao seu “consultório” reclamando de uma dor no lado direito da barriga.
Primeiro ele me perguntou se eu não estava de piriri. Como não era o caso, ele deu umas batidas com os dedos em minha barriga e descobriu que eram gases.
Contudo, enquanto preparava um remédio para eu tomar, ficou brincando como se ainda não soubesse o diagnóstico.
- Acho que é problema no útero.
- Será que não é cólica menstrual?
Já adulto, costumava ir a sua farmácia todo dia que estava de ressaca, e, até liberar aquela mistura que fazem para dar uma “levantada na moral”, ele, que havia superado o hábito de beber, sempre ia a seu escritório e trazia um quarto de pinga, de um litro que ele guardava para colocar à prova sua sobriedade.
- Toma bobo. Não é bom? Então toma mais.
Hoje sua drogaria é administrada por suas filhas, Janine e Lea. E o nome não poderia ser outro, “Drogaria do Lôro”. Porém, o mercado que antigamente era divido entre duas drogarias, atualmente é disputado por umas sete.
E ainda hoje, existem nesse mercado pessoas que trabalharam com ou para Lôro, como Valmir de Seu Neco e João Vilson (Gilson de Dona Sinhá).

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Lôro foi um cidadão ativo. Participou de grupos de teatro, foi jogador de futebol pelo famoso time Agulha, político atuante e formador de opinião. Foi um dos primeiros membros da Loja Maçônica Acácia de Malacacheta e do AA.
Waldemar José Pereira, faleceu em 14 de abril de 2009, após lutar bravamente contra um câncer.
Como justa homenagem, um dos principais postos de saúde do município, o da ‘‘Rua de Cima’’, foi batizado com seu nome.
Durante muito tempo ainda se falará do saudoso Lôro, o Farmacêutico, o Maçom, o Vereador, o cidadão prestativo e boa-praça. Uma Personalidade Malacachetense.

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