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Maria de Tal, desgraçadamente ruma para a lixeira levando os rejeitos do dia. Jovem, negra forte, não resiste à tentação e ataca mais uma vez. Aquelas cascas de requeijão moreno, revisado a fio na lamina da "peixeira" cortante da senhora patroa, lhe cairia muito bem naquele momento. Cascas, excedentes para os ricos, mas de fino paladar para a jovem miserável que passava fome na grota do Anu Branco.

Maria de Tal não era a única a sair da roça para experimentar a vida naquele vilarejo. Seu interesse vogava aos sórdidos desejos do estômago e não a letras propriamente ditas. Na casa dos "grandes", para frequentar a escola, a tal da Maria, tinha tarefas ditadas aos olhos que tudo viam, e tarefas esdrúxulas na calada da noite. Na fechada dos olhos da senhora patroinha, Maria de Tal fechava janelas, fechava os portões e abria o que não devia.

Maria de Tal aprendeu a ser honesta e a curiosidade a guiava na compreensão dos mundos. Qualquer caixinha lacrada, era um mundo novo aprisionado, para quem cobria suas "regras" com restos de panos da costura da avó.

Então, jogar fora cascas de requeijão seria ferir a honra da fome ou do desejo de comer, mesmo que indignamente, a sobra dos ricos. Não se joga fora, mesmo mofando, aquilo que em sã consciência já começava a feder, mas se pertenceu à mesa farta dos que muito tinham, seria restos dignos de se consumirem, pensava ela.

Maria de Tal, sem manual de instruções sexuais, brigava com os hormônios e se fechava para não abrir. Trancava a relho o quartinho dos fundos, para que os ratos farejadores, "bulinadores" daquelas que eles enxergavam como restos; objetos de treinamento de meninos homens da alta sociedade.

Disso Maria de tal sabia, pois ao ir para a vila, Joana de Tal lhe avisou.
- Não vá, e se for a cartilha é esta: O próprio patrão estimula o seu filho a invadir a noite o quartinho dos fundos. A ordem é: quer ser homem? Então vire homem, chegue chegando, invada o quarto e faça o serviço. Mostre que você é homem.

Maria de tal guardou bem o conselho, por isso reforçava a tranca e dormia pouco. Ela sabia que era olhada como objeto de uso doméstico e como objeto de uso de filho de patrão.

Não existia estudo em jogo, existia uma troca. Comida e serviço puxado, das seis da manhã à calada da noite ou ao cair da ultima migalha daquelas mesas intermináveis. Assim, se ia! Olho no peixe outro no gato, até que levou uma bronca da patroa. Bronca parida sem motivos aparentes, a não ser o cheiro que exalava dos hormônios em transição.

- Maria de tal, agora que estamos a sós, você vai me escutar! Que merda de pernas são estas? Percebo que exagera na Alfazema, está muito roliça. Deus me livre se meu filho fizer um filho em você, sua morta de fome, Imprestável! Arruma suas trouxas e some daqui. Tem muito homem nesta casa. Vou juntar uns trapinhos de minha sobrinha Cacilda para você levar e usar naquele buraco do Anu Branco. Assim, as más línguas não falarão que você ficou aqui e não ganhou nada.

- Quanto aos estudos, você só vai até o quarto ano menina. Se quiser estudar mais, terá que ir para outra cidade. Quem vai bancar isso? Nasceu pobre, vai morrer pobre. Se arrume logo que de tarde compadre Alonso arria os cavalos e te leva para sua mãe.

Maria de tal, sem entender muito, obedeceu. Frustrada, se lembrou de que era tempo de repassar o milho e que em breve voltaria para a roça do espigão, fartura naquele Anu Branco. Na estrada, na subida íngreme do morro do Jovino, ao trote manso do cavalo Maria refletia um pouco mais sobre aquela vida miserável, onde até o seu próprio corpo conspirava contra ela. Naquele momento, arrancou um galho de assa peixe, para espantar as moscas que insistiam em forma de nuvem negra seguir infortunando.

Seu Alonso, curioso indagou:
- Uai menina, por que é que a patroa tá te mandando de volta? E a escola?
- Ah Seu Afonso, essas coisas não são para pobre não! É como minha vó diz: Quem nasceu para lagartixa, nunca chega a jacaré.
Alonso, sem entender muito, chicoteou o cavalo, que respondeu a altura.

O tempo estava seco, As coisas na grota do Anu não estavam bem. Maria de Tal era a segunda filha de um numero de oito. O mais velho era homem. Serafim de Tal, fôra a escola alguns meses. Vitima de risos e xingamentos, não voltou mais. O pai, não fez questão, com isso teria uma mão de obra a mais na lavoura. Era convicto de que homem, filho de pobre, nascera para trabalhar duro na roça...

* Qualquer coincidência, só pode ser mera semelhança!

Agnaldo Campos
Ator - registror cultural

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