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Zé era um rapazote moreno queimado de sol e trabalhava na lavoura com os irmãos e o pai, que era agregado na fazenda de coronel Sicrano.
Querendo mudar de vida e com a ajuda da mãe, convenceu seu pai a arranjar abrigo na casa de um tio que morava na cidade.
Deixou com tristeza a família e a fazenda onde crescera, mas cheio de planos. Foi morar em uma casa simples com seus tios, em um quartinho vago nos fundos.

Logo, o tio arranjou para Zé, o emprego de aprendiz de pedreiro, com um amigo, que aceitou ensiná-lo, mas não podia pagar quase nada.
Zé aprendeu a fazer alguns reparos, pequenas pinturas, trocar uma torneira, desentupir uma pia, etc.

Sem dinheiro para se divertir, seu passatempo, enquanto estava de folga, era passear pelas ruas da pequena cidade.
Observador, notou que muitas casas ou mesmo seus quintais ou jardins precisavam de cuidados.
Juntando o que acabara de aprender, ao que já sabia dos anos de lida na roça, Zé decidiu que ganharia mais, oferecendo seus serviços a essas pessoas.

Assim começou a percorrer as casas da cidade oferecendo seus préstimos.
- Bãos dia, dona. A sinhora nun qué qui capine seu quintal?
- Dia moço, o sinhô nun tá pricisano de argúem pra consertá sua cerca?

Sem medo do trabalho e caprichoso em seus afazeres, logo passou a ser conhecido na cidade como Zé dos bicos.
Foi assim que certo dia, Zé dos bicos foi trabalhar na casa dos patrões de Maria de Tal.

Zé se encantou a primeira vista com a menina-moça negra. Maria de Tal era alegre, educada e parecia nem se importar com as imposições da patroa severa.

O serviço de Zé dos bicos agradou e sempre que aparecia algo a fazer, para sua felicidade, ele era convocado pela patroa de Maria de Tal.

Em sua cabeça Maria de Tal também havia se interessado por ele. Afinal sempre que seus olhares se cruzavam, ela sorria mostrando seus dentes muito brancos.

Na hora do almoço a patroa sempre ordenava a Maria de Tal que levasse a comida para ele, não sem antes fazer uma observação.
- Maria leva a comida para o Zé dos Bicos. Não quero ninguém dizendo por aí que na minha casa os empregados passam fome.

Nessa hora os dois aproveitavam para bater papo.

Maria contava para Zé histórias de onde viera, que estava trabalhando e pretendia estudar. Aconselhava Zé, que era analfabeto, a frequentar um curso noturno de alfabetização.

A patroa logo gritava.
- Maria, cadê você?
- Peraí patroa. Tô esperano o Zé dos Bico cumê, pra eu levá o prato.

E aquele sentimento gostoso, que deixa as pernas moles, o peito ardendo e o coração batendo acelerado, foi tomando conta de Zé dos Bicos, a ponto dele chegar a enrolar com o serviço para passar mais tempo na casa dos patrões de Maria.

Também observou os horários que Maria de Tal saia para comprar alguma coisa para a patroa e dava uma escapada do serviço, só para vê-la e ser visto por ela.

Por Maria, Zé estava disposto a melhorar. Estava pensando pela primeira vez em estudar e melhorar seus modos.
Sua tia vivia lhe cobrando para mudar o hábito de cuspir no chão, mas ele não importava. Porém um dia teve a impressão que Maria de Tal, fizera uma cara de nojo quando ele cuspiu. Foi o bastante para que ele abandonasse o hábito.

À noite, em sua cama, deitado em um colchão ralo, Zé fazia planos. Iria se declarar para Maria de Tal. Iria conversar com a patroa dela e pedir a permissão para "noivar".

Mas como ele iria fazer isso, se era tímido, ignorante e nem sabia conversar direito? Aonde eles iriam "noivar", se a patroa de Maria de Tal nem permitia que ele entrasse em casa? 

Maria de Tal não era moça para namorar pelas esquinas, ele a queria para casar, no civil e no religioso. Queria formar com ela uma família.

Tudo que a patroa temia que acontecesse entre os homens da casa e Maria de Tal, por simples vontade e prazer, era o contrário dos sentimentos que Zé dos bicos nutria.

Mas o tempo foi passando e Zé não conseguia tomar nenhuma atitude.

Quando soube que Maria de Tal havia sido devolvida aos pais por seus patrões, sofreu um baque.

Ficou com raiva de si, por não ter se declarado antes. Pensou em ir até a roça onde Maria de Tal foi levada e pedir sua mão a seus pais. Mas não teve coragem. Ficou com receio dos pais de Maria não o aceitarem. Afinal ele sequer tinha uma casa para morarem.

Talvez, tudo que Maria de tal quisesse fosse que Zé tivesse a pedido em namoro. Quem sabe assim, tendo um namorado, os filhos da patroa a respeitassem e ela não tivesse que ir embora. Talvez...

Mas, mesmo sem saber se seu amor era correspondido, Zé dos Bicos, decidiu que iria se alfabetizar e trabalhar muito e assim que tivesse uma casa, pediria aos pais de Maria para noivarem por um tempo, até que ela fizesse o enxoval e ele pudesse comprar alguns móveis para a casa.

Zé dos Bicos acreditava que, Maria de Tal estava destinada a ser sua esposa e mesmo que demorasse, ela estaria esperando por ele.

E com esse sentimento, nosso amigo, Zé dos bicos, foi executando o que planejara. Se Maria de Tal, quando chegada à hora, não o estivesse esperando, pelo menos teria servido de incentivo para que ele progredisse.

Wanderlan MagOO–
Quecoçô? Um sonhador...

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